Homens que cuidam são mais saudáveis e vivem melhor
O cuidado não beneficia apenas quem o recebe. Homens que participam ativamente da criação dos filhos, desenvolvem vínculos afetivos e compartilham responsabilidades familiares tendem a apresentar melhor saúde física e mental, maior satisfação com a vida e relacionamentos mais sólidos.
A afirmação é do jornalista, pesquisador e mentor em masculinidades Lincoln Tavares, fundador do Instituto Homens que Cuidam, que defende uma mudança cultural urgente diante do envelhecimento acelerado da população brasileira. “Quando o homem aprende a cuidar do outro, ele aprende a cuidar de si”, afirma. “Nós, homens, negligenciamos o cuidado. Se eu negligencio o cuidado com os filhos, eu vou negligenciar o cuidado comigo”, diz ele.
O tema foi debatido no segundo episódio da terceira temporada do quadro Juntas Geniosas, exibido em 17 de julho de 2026, com as jornalistas Jussara Goyano e Gláucia Viola, além da designer Monique Elias. A jornalista Paula Felix fez uma participação virtual. O programa discutiu a cultura do cuidado, as masculinidades contemporâneas e os desafios da longevidade no Brasil.
A reflexão ganha relevância em um momento em que o país passa por uma transformação demográfica histórica. Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil caminha para se tornar uma sociedade majoritariamente envelhecida nas próximas décadas, exigindo novas políticas públicas e uma revisão dos papéis sociais relacionados ao cuidado.
Para Lincoln, porém, ainda há um problema estrutural: o cuidado continua sendo tratado como uma atribuição feminina. “Se eu digo que alguém está ajudando, estou dizendo que a responsabilidade é do outro e eu vou dar uma forcinha”, explica. “Quando a gente está falando do cuidado, a gente não está falando de ajuda, está falando em dividir responsabilidades”.
O cuidado também faz bem para os homens
Dados internacionais reforçam a percepção apresentada pelo especialista. Um relatório desenvolvido pelo Instituto Promundo em parceria com organizações de diversos países mostra que homens mais envolvidos no cuidado dos filhos apresentam níveis mais elevados de satisfação com a vida, maior bem-estar emocional e relacionamentos familiares mais fortes.
Lincoln afirma que o afastamento histórico dos homens das atividades de cuidado também contribui para indicadores preocupantes relacionados à saúde masculina. “A gente se suicida quatro vezes mais. Vive, em média, sete anos menos no Brasil exatamente porque negligencia o cuidado”, destaca. “O homem não pensa em saúde preventiva. Só vai ao médico quando está morrendo”, complementa.
De acordo com o Ministério da Saúde, a resistência masculina em buscar atendimento preventivo continua sendo um dos principais desafios das políticas públicas voltadas à saúde do homem.
Para o especialista, estimular o cuidado desde a infância é fundamental para mudar esse cenário. Segundo ele, meninos ainda são educados para associar masculinidade à força, ao trabalho e ao papel exclusivo de provedor financeiro. “Não basta ser homem, tem que performar ser homem. Socialmente, os signos que a gente conhece são não chorar, não demonstrar sentimentos, trabalhar e ser forte”.
Masculinidades em transformação
Ao longo do debate, Lincoln chamou atenção para aquilo que considera um equívoco recorrente nas discussões sobre masculinidade: a ideia de que existe um modelo único de ser homem.
“Toda vez que a gente generaliza, a gente despersonaliza”, afirma. “O discurso simplista é dizer que homens são isso e mulheres são aquilo. Quando a gente traz para as pessoas e suas características individuais, existem muito mais camadas”.
Segundo ele, a chamada “crise da masculinidade” está relacionada, em grande parte, à perda histórica de privilégios masculinos em uma sociedade que se torna mais igualitária. “Toda vez que o homem vê os seus privilégios em risco, ele diz que a masculinidade está em crise”, comenta.
O pesquisador observa ainda que muitos homens desejam construir novas referências masculinas, mas encontram dificuldades para acessar espaços seguros de diálogo.
Uma pesquisa recente do Instituto Papo de Homem, citada durante a entrevista, aponta que seis em cada dez meninos e jovens da América Latina afirmam não possuir uma referência masculina positiva.
“Existe muito homem do lado de fora querendo dialogar, querendo se vulnerabilizar, querendo ser um pai melhor e um marido melhor”, ressalta Lincoln.
Licença-paternidade ainda é um obstáculo cultural
Outro aspecto abordado durante o programa foi a licença-paternidade no Brasil. Lincoln destaca que os atuais cinco dias previstos em lei, podendo chegar a 20 dias nas empresas participantes do Programa Empresa Cidadã, comunicam socialmente que o cuidado não é uma responsabilidade masculina. “Quando você fala que são cinco dias, está dizendo para o homem que o cuidado não é o seu lugar”, afirma ele.
Na avaliação do especialista, a ausência de políticas mais robustas relacionadas à parentalidade acaba perpetuando desigualdades históricas na divisão do trabalho doméstico e dos cuidados familiares.
Dados do IBGE mostram que as mulheres brasileiras continuam dedicando significativamente mais horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas do que os homens. A Organização Internacional do Trabalho também aponta que, mundialmente, as mulheres realizam cerca de três vezes mais trabalho de cuidado não remunerado.
Envelhecimento exige uma cultura coletiva do cuidado
O envelhecimento populacional foi outro eixo central do episódio. Para Lincoln, o Brasil ainda trata a velhice como uma questão individual, quando deveria ser compreendida como uma responsabilidade coletiva. “A política nacional do cuidado fala sobre cuidar de si, cuidar do outro e cuidar dos grupos vulneráveis”, explica. “O cuidado precisa ser pensado como uma tecnologia para beneficiar todas as pessoas”.
Em 2024, o Brasil aprovou a Política Nacional de Cuidados, considerada um marco na organização das responsabilidades relacionadas ao cuidado de crianças, idosos e pessoas em situação de dependência. O objetivo é justamente reconhecer que o trabalho do cuidado não pode continuar concentrado, principalmente, sobre as mulheres.
Lincoln observa que a cultura do cuidado também impacta diretamente a qualidade de vida dos homens idosos. Segundo ele, muitos enfrentam dificuldades emocionais após a perda das companheiras porque nunca aprenderam a cuidar de si mesmos ou a construir redes afetivas duradouras.
“Quando os homens ficam viúvos, eles costumam entrar em um novo relacionamento porque está relacionada à ideia de ser cuidado por alguém. A mulher, muitas vezes, já se cuida sozinha há bastante tempo”.
Pesquisas da Organização Mundial da Saúde têm demonstrado que o isolamento social e a solidão representam fatores de risco importantes para depressão, comprometimento cognitivo e mortalidade precoce na população idosa.
Cuidar é um ato de humanidade
Ao longo da conversa, Lincoln reforçou que ampliar a participação masculina no cuidado não significa retirar características dos homens, mas humanizar as relações. “Esse assunto é bom para os homens porque humaniza as relações”, afirma. “Não é para ele ser menos ou mais homem. É para ele se humanizar”.
Para o pesquisador, a construção de relações mais horizontais dentro das famílias será indispensável em uma sociedade que envelhece rapidamente e precisará compartilhar responsabilidades de cuidado entre indivíduos, comunidades e políticas públicas. “Família é cooperativa”, resume. “Não tem ninguém mais nem menos. Cada um faz a sua parte”.
Para o convidado especial do Juntas e Geniosas, Lincoln Tavares, discutir masculinidades é, antes de tudo, discutir humanidade. Em um país que envelhece rapidamente e ainda concentra o trabalho do cuidado sobre as mulheres, ampliar a participação masculina nesse processo deixou de ser apenas uma pauta de igualdade de gênero para se tornar uma necessidade social.
Aprender a cuidar — de si, do outro e da coletividade — pode ser um dos caminhos para construir relações mais saudáveis, uma longevidade mais digna e uma sociedade preparada para os desafios das próximas décadas. Afinal, cuidar não é ajudar. É compartilhar responsabilidades e reconhecer que todos ganham quando o cuidado é entendido como um valor humano e coletivo.
Assista o programa na íntegra:
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