Dinheiro fácil ameaça saúde emocional de jovens empreendedores
O desejo de conquistar independência financeira rapidamente tem levado milhares de jovens brasileiros a um caminho marcado por ansiedade, frustração e endividamento.
Para o educador financeiro e fundador da Investeens, Deivyd Barros, a combinação entre redes sociais, promessas de enriquecimento instantâneo e falta de educação financeira tornou-se um dos maiores desafios para a saúde emocional da nova geração de empreendedores.
Durante participação no episódio especial da JG TV Casa Aberta, dedicado ao tema “Saúde emocional do empreendedor: o custo que ninguém calcula”, Barros afirmou que o maior problema não está na vontade de empreender, mas na expectativa criada em torno do sucesso imediato.
“Quando a gente traz para a educação financeira e para o mundo dos negócios, uma coisa que pega muito hoje os jovens são as promessas. A gente fala de aposta, a gente fala de tigrinho, a gente fala de bets. É um cenário complicadíssimo“, alertou.
O episódio, apresentado pela jornalista Jussara Goyano e gravado com plateia, reuniu ainda Denise Lemos, CEO da Amakha Paris, e o psicanalista Rogério Bragherolli para discutir os impactos emocionais do empreendedorismo e das transformações do mercado de trabalho.
Conquista da liberdade financeira
Segundo Deivyd, a geração Z cresceu observando os pais conquistarem patrimônio por meio de empregos estáveis, mas hoje encontra um cenário econômico completamente diferente.
“O jovem está batalhando muito e não está enxergando esse horizonte. A inflação, o aumento do custo de vida e a dificuldade para comprar um imóvel ou um carro acabam gerando um sentimento de desânimo. Muitos se perguntam: será que eu vou conseguir?”, afirmou.
Na avaliação do educador financeiro, esse contexto faz com que muitos enxerguem o empreendedorismo como uma saída para conquistar liberdade financeira.
Entretanto, ele alerta que abrir um negócio sem planejamento pode ampliar a pressão emocional. “Eu também não acredito que seja só uma questão de querer. Tem apoio familiar, conhecimento, orientação e preparação. Não basta simplesmente se jogar e tentar a sorte“, explicou.
Confusão entre independência e ausência de planejamento
Fundador da Investeens, empresa dedicada à educação financeira de jovens, Deivyd atua em escolas, universidades e organizações levando conteúdos sobre finanças pessoais, empreendedorismo e planejamento de carreira.
Segundo ele, uma das perguntas mais frequentes feitas por adolescentes e universitários revela uma mudança significativa no comportamento das novas gerações. “O que eu mais escuto dos jovens é: eu quero ser dono do meu próprio horário, do meu próprio emprego e não quero mais trabalhar para ninguém“, contou.
Apesar do entusiasmo com o empreendedorismo, Deivyd observa que muitos confundem independência com ausência de planejamento.
Para ele, educação financeira não significa apenas aprender a investir, mas desenvolver consciência sobre escolhas, consumo, disciplina e construção de patrimônio ao longo do tempo.
Esse aprendizado, segundo o especialista, deve começar ainda na infância.
Questionado sobre o uso da mesada como ferramenta educativa, ele explicou que não existe uma fórmula única. “A mesada é uma boa forma de ensinar educação financeira desde cedo, mas não é a única“, afirmou. Como exemplo, citou famílias que utilizam o tempo de bateria de um tablet ou de outros recursos limitados para ensinar crianças sobre administração de escassez, planejamento e tomada de decisões.
Experiências práticas produzem resultados
Para Deivyd, experiências práticas costumam produzir resultados mais duradouros do que simples orientações teóricas.
Outro ponto que preocupa o educador é o efeito das redes sociais sobre a autoestima dos jovens. Segundo ele, a exposição diária a histórias de sucesso cria comparações injustas.
“Você abre o celular e vê alguém da sua idade, ou até mais novo, aparentemente muito mais bem-sucedido. Aí começa a se perguntar se está fazendo tudo errado“, observou.
Na visão do especialista, o problema não está em buscar referências, mas em comparar os bastidores da própria vida com o palco exibido por outras pessoas. “Todo mundo tem altos e baixos, erros e acertos. É preciso tomar cuidado para não olhar apenas o resultado das pessoas“, afirmou.
O cenário torna-se ainda mais delicado quando plataformas digitais passam a oferecer soluções aparentemente fáceis para dificuldades financeiras.
Segundo Deivyd, muitos jovens, pressionados por dívidas ou pela sensação de atraso em relação aos colegas, acabam sendo atraídos por promessas de ganhos rápidos.
“O jovem está preocupado em comprar o apartamento que não consegue. Então tenta cortar caminho. Abre o YouTube e só encontra propaganda de dinheiro fácil. Ele ainda não sabe que isso não existe e acaba afundando cada vez mais“, alertou.
Na avaliação do educador financeiro, esse processo tem consequências que vão muito além do orçamento doméstico. “A gente precisa olhar para isso com mais calma e mais cuidado, porque senão vamos formar uma geração muito doida da cabeça“, afirmou.
Maior alfabetização financeira
Os alertas apresentados durante a JG TV Casa Aberta encontram respaldo em indicadores nacionais.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que o endividamento das famílias brasileiras permanece em patamares elevados, refletindo o peso do crédito e da inflação sobre o orçamento doméstico. Já o Serasa identifica que milhões de brasileiros convivem com algum tipo de inadimplência, fenômeno que afeta especialmente adultos jovens em início de carreira.
No campo da educação financeira, estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reforçam que pessoas com maior alfabetização financeira tendem a tomar decisões mais conscientes, apresentar menores níveis de endividamento e desenvolver maior resiliência diante de crises econômicas.
Buscar conhecimento é fundamental
Ao longo da conversa, Deivyd também destacou que empreender não significa abandonar a preparação profissional.
Segundo ele, antes de abrir um negócio, é fundamental buscar conhecimento, fazer cursos, construir uma rede de apoio e compreender que empresas sustentáveis são resultado de planejamento e aprendizado contínuo.
A mensagem dialoga diretamente com as experiências compartilhadas por Denise Lemos e Rogério Bragherolli durante o episódio.
Enquanto Denise demonstrou que a resiliência nasce da capacidade de aprender com as crises, Rogério destacou que líderes emocionalmente saudáveis reconhecem seus limites e aprendem a dividir responsabilidades.
Na avaliação de Deivyd, educação financeira, saúde emocional e empreendedorismo deixaram de ser temas independentes.
Hoje formam um mesmo alicerce para quem deseja construir uma carreira consistente. “Não vai ser fácil. Nunca é fácil. Mas é possível“, concluiu o educador financeiro.
Assista o Programa na íntegra no canal do You Tube.
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