Saúde emocional do empreendedor define o futuro dos negócios

Durante muito tempo, falar sobre empreendedorismo significava discutir faturamento, inovação, produtividade e crescimento. A saúde emocional quase nunca fazia parte da conversa.

No entanto, diante de um cenário econômico instável, transformações tecnológicas aceleradas e mudanças profundas nas relações de trabalho, um novo indicador passou a determinar a sustentabilidade das empresas: a capacidade do empreendedor de preservar o próprio equilíbrio emocional.

Esse foi o principal consenso apresentado durante o episódio especial da JG TV Casa Aberta, gravado com plateia e exibido em 30 de junho de 2026.

O Programa reuniu Denise Lemos, CEO da Amakha Paris; Rogério Bragherolli, psicanalista e mentor de executivos; e Deivyd Barros, fundador da Investeens e educador financeiro. Eles trouxeram um tema pouco abordado no ambiente corporativo e debateram sobre o custo invisível da saúde emocional para quem empreende.

Embora os convidados tenham trajetórias completamente diferentes, todos chegaram à mesma conclusão de que nenhuma empresa cresce de forma sustentável quando seu líder negligencia a própria saúde mental.

Essa percepção encontra respaldo em estudos internacionais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que transtornos como ansiedade e depressão provoquem a perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, gerando impacto econômico superior a US$ 1 trilhão em produtividade. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) também destaca que ambientes psicologicamente saudáveis aumentam produtividade, inovação e retenção de talentos.

Foi justamente essa perspectiva humana que norteou toda a conversa.

O empreendedor também sente medo

Quando se observa a trajetória de empresários de sucesso, é comum imaginar que eles sempre souberam exatamente o que fazer.

A história de Denise Lemos desconstrói esse mito. Antes de construir uma empresa que alcançou centenas de milhões de reais em faturamento, ela enfrentou falências, prejuízos, perda de estoque, dificuldades financeiras e inúmeros recomeços.

Um dos episódios mais marcantes aconteceu quando precisou interromper os negócios para cuidar do pai. Ao retornar, descobriu que praticamente toda a mercadoria de sua loja de roupas havia desaparecido.

Mais do que perder dinheiro, ela precisou reconstruir a própria confiança. Afinal, uma quebra não é só perda financeira. “É você lidar com frustração, com incertezas, se questionar: será que eu não sou capaz?“, diz Denise. Segundo ela, essas experiências mudaram completamente sua maneira de liderar.

Hoje, a executiva acredita que cada obstáculo serviu como preparação para desafios maiores. “Eu vejo na minha trajetória eu sendo preparada para ser a Denise forte e capaz de estar hoje dirigindo a empresa“.

O momento de maior crise da saúde emocional

Se os desafios anteriores ensinaram resiliência, a pandemia de Covid-19 testou todos esses aprendizados ao mesmo tempo.

Com o principal canal de vendas interrompido pelas restrições sanitárias, Denise afirma que sua maior preocupação deixou de ser o faturamento. Seu foco passou a ser as pessoas.

A grande dificuldade foi manter pessoas, manter famílias… como eu ia sustentar mais de 200 funcionários sendo que ninguém podia sair para vender?“, comentou Denise. A resposta veio da inovação com treinamentos digitais, capacitação online e vendas pelo WhatsApp.

A criação da chamada “sacolinha 24 horas” foi uma reinvenção que permitiu que a empresa encerrasse justamente aquele período com recorde histórico de faturamento.

Foi o ano em que saí na Forbes e batemos R$ 300 milhões de faturamento. Conseguimos dar a volta por cima.”, se emociona a executiva, para quem o aprendizado mais importante foi entender que nenhuma crise é definitiva.

O líder precisa ter e incentivar a saúde emocional

Se Denise falou sobre resiliência, Rogério Bragherolli trouxe uma reflexão diferente.

Na visão do psicanalista, muitos executivos adoecem porque acreditam que liderar significa esconder qualquer sinal de fragilidade.

Eu não posso errar. Eu não posso chorar. Eu não posso não saber. Eu tenho que ser o fortão“, comenta Rogério. Segundo ele, essa tentativa permanente de parecer invulnerável produz ansiedade, isolamento e decisões equivocadas.

O problema é agravado porque boa parte dos líderes deixa para enfrentar conflitos apenas quando eles já se tornaram crises. “Você deixa um problema hoje. Amanhã ele aumenta. Depois vira um buraco que você não consegue mais corrigir“, explica.

Para Rogério, na prática, as empresas raramente quebram apenas por questões financeiras. Na maioria das vezes, elas acumulam pequenos conflitos internos que deixam de ser enfrentados.

O fundo do poço não aparece nas redes sociais

Outro ponto levantado pelo especialista foi a comparação permanente estimulada pelas plataformas digitais. Rogério fala que os empresários e profissionais passaram a comparar sua vida real com uma vitrine cuidadosamente editada. 

Sua definição arrancou risos da plateia. “O fundo do poço talvez seja o lugar mais frequentado do mundo. Só que ninguém tira selfie nele“. A frase resume uma realidade conhecida por quem empreende.

As redes mostram faturamento, viagens, prêmios, crescimento. Mas quase nunca mostram noites sem dormir, dívidas, decisões difíceis, ansiedade ou medo.

A geração Z e o empreendedorismo

Esse fenômeno aparece ainda mais forte entre os jovens. Deivyd Barros trabalha diariamente com adolescentes e universitários levando educação financeira. Segundo ele, o sonho da maioria mudou.

O que eu mais escuto é: eu quero ser dono do meu próprio horário e não quero trabalhar para ninguém“, afirma Deivyd.

O problema começa quando essa expectativa encontra a realidade econômica, inflação elevada, crédito restrito, mercado competitivo. Tudo isso gera frustração e “o jovem está batalhando muito e não consegue enxergar esse horizonte“, complementa.

O perigo do dinheiro fácil

Na avaliação do educador financeiro, a ansiedade produz outro fenômeno preocupante com as promessas de enriquecimento imediato.

Segundo ele, muitos jovens acabam tentando acelerar resultados porque acreditam estar atrasados em relação aos colegas.

Ao abrir as redes sociais, encontram influenciadores exibindo carros, viagens e luxo. A consequência costuma ser perigosa.

O jovem abre o YouTube e só encontra propaganda de dinheiro fácil. Ainda não sabe que isso não existe“, alerta o educador financeiro.

Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostram que o endividamento das famílias brasileiras permanece elevado, enquanto levantamentos do Serasa apontam milhões de consumidores inadimplentes.

Para Deivyd, educação financeira deixou de ser apenas uma questão econômica. Hoje é também uma questão de saúde mental.

O empreendedor precisa aprender a pedir ajuda

Apesar das diferentes experiências, os três convidados convergiram em um aspecto. Ninguém constrói uma empresa sozinho.

Rogério reforçou que reconhecer limites é uma característica de líderes maduros. Já Deivyd afirmou que jovens empreendedores precisam abandonar a ideia de que basta ter coragem.

Denise destacou diversas vezes a importância dos irmãos na gestão da Amakha Paris.Segundo ela, decisões estratégicas são tomadas coletivamente”. A gente escuta muito um ao outro para tomar decisões“, comenta ela.

A disciplina continua sendo o diferencial

Ao longo da conversa surgiu outro consenso. Todos afirmam que o sucesso não acontece por acaso.

Bragherolli resumiu em três palavras: “Vontade, disciplina e espírito colaborativo“.

Denise acrescentou outra dimensão. Ela afirma que investe continuamente em exercícios físicos, pilates, artes marciais e desenvolvimento humano para preservar o equilíbrio emocional.

Empreendedor que acha que vai empreender sem mexer com o emocional precisa se preparar física e emocionalmente para tudo“, afirma Denise.

Empresas sustentáveis começam por líderes saudáveis

Ao final do episódio da JG TV Casa Aberta, ficou evidente que e saúde emocional deixou de ser um tema restrito à psicologia. Ela passou a integrar a estratégia empresarial.

Não por acaso, organizações que investem em bem-estar, comunicação, desenvolvimento humano e educação financeira tendem a apresentar maior capacidade de adaptação às crises.

Para Denise Lemos, empreender significa aprender continuamente.

Para Rogério Bragherolli, significa abandonar a necessidade de parecer invencível.

Para Deivyd Barros, significa construir patrimônio sem abrir mão da saúde mental.

As três perspectivas convergem para a mesma conclusão de que nenhuma decisão é sustentável quando o empreendedor deixa de cuidar de si.

Assista o Programa na íntegra no canal do You Tube:

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