Comunicação autêntica é diferencial para carreira e liderança
Atualmente, os profissionais são cada vez mais pressionados a construir presença digital, fortalecer a marca pessoal e se posicionar publicamente, a capacidade de se comunicar bem tornou-se uma das competências mais valorizadas do mercado. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, a boa comunicação não está necessariamente ligada a uma voz perfeita, uma dicção impecável ou à reprodução de modelos consagrados.
Para o pesquisador e doutor em longevidade de carreira Emerson Dias, o principal elemento de uma comunicação eficaz é a autenticidade.
“Eu acho que a questão da oratória é você imprimir a sua identidade. Tem espaço para todo mundo. A questão é você achar a sua identidade e, a partir dela, treinar para ficar cada vez melhor”, afirmou durante entrevista ao podcast JG TV.
A percepção do especialista vai ao encontro de pesquisas sobre comunicação e liderança. Estudos da consultoria global Gallup apontam que profissionais considerados autênticos tendem a gerar maior engajamento e confiança em equipes e audiências, atributos cada vez mais relevantes em ambientes corporativos e digitais.
O erro de tentar imitar grandes comunicadores
Segundo Dias, uma das armadilhas mais comuns entre profissionais que desejam melhorar a comunicação é tentar reproduzir estilos de comunicadores admirados.
Ao longo da carreira, ele próprio passou por essa experiência. “Eu queria falar igual ao Barack Obama. Trabalhei em rádio durante muito tempo e queria imitar os locutores. Mas percebi que não era a minha voz original. Cada vez que eu fazia esse esforço, parecia que estava num programa imitando alguém”.
O resultado, segundo ele, era o enfraquecimento da própria identidade. “As vezes em que eu falei melhor e recebi os melhores feedbacks foram justamente quando estava sendo eu mesmo”.
Para o especialista, a construção de uma comunicação marcante acontece quando a audiência passa a reconhecer não apenas o conteúdo, mas também a personalidade de quem fala.
O caminho para desenvolver a oratória
Embora a autenticidade seja central, Dias ressalta que a comunicação é uma competência que exige prática constante.
Durante a entrevista, ele citou uma frase que costuma utilizar em treinamentos: “Demora mais ou menos 40 dias para eu fazer um discurso improvisado”.
A provocação busca demonstrar que aquilo que muitas vezes parece espontâneo é resultado de preparação. “Quanto mais você treina, repete e pratica, melhor você fica”.
Entre as técnicas recomendadas pelo especialista está o hábito de escrever antes de gravar vídeos ou fazer apresentações.
“Escrever organiza o pensamento. Você percebe se está repetitivo, se falta lógica, coerência ou estrutura. Depois você fala sobre aquilo que escreveu, usando suas próprias palavras. É isso que faz soar natural”.
Além disso, ele recomenda assistir às próprias gravações como forma de desenvolver autoconsciência e aprimorar a execução.
A competência que atravessa todas as profissões
Autor do livro Carreira: A Essência Sobre a Forma, Dias defende que a comunicação deve ser considerada uma competência transversal.
“Eu acredito que a comunicação é a competência. Se você for médico e não conseguir se comunicar bem, terá dificuldades com os pacientes. Se for professor, líder ou gestor, a situação é a mesma”.
Segundo ele, a habilidade influencia diretamente relacionamentos profissionais, capacidade de liderança, resolução de conflitos e até produtividade em ambientes organizacionais.
O especialista conta que a inspiração para desenvolver treinamentos de oratória surgiu ao observar situações cotidianas, como reuniões de condomínio conduzidas por pessoas que dominavam o assunto, mas não conseguiam transmiti-lo de forma clara e objetiva.
“Quando alguém consegue falar no tempo correto, com clareza e sem precisar repetir o que disse, há um enorme ganho de produtividade para todos”.
Inteligência emocional faz diferença na comunicação
Para Dias, comunicar-se bem vai muito além da fala. A capacidade de interpretar contextos, ouvir com atenção e administrar emoções influencia diretamente a qualidade das interações. “Comunicação anda junto com inteligência emocional”, afirmou.
Ele destaca que a liderança oferece um exemplo claro dessa relação. Embora pessoas extrovertidas costumem se destacar mais facilmente em apresentações e exposições públicas, pesquisas indicam que líderes introvertidos podem apresentar vantagens em determinadas situações.
“O que manda na liderança não é a expressão, é a comunicação. E comunicação envolve saber ouvir. O introvertido muitas vezes leva vantagem porque dá espaço para as outras pessoas falarem”.
A importância da comunicação para a marca pessoal
A discussão sobre presença profissional nas redes sociais também ganhou uma contribuição complementar durante o episódio.
Em participação especial em vídeo, o especialista em audiovisual e imagem profissional Ernanni Bronzatto destacou que a qualidade técnica da produção influencia diretamente a retenção da audiência. Segundo ele, aspectos como iluminação adequada, áudio limpo e enquadramento correto são decisivos para transmitir credibilidade e manter a atenção do público.
“A imagem faz a pessoa parar para assistir, mas o áudio é o que faz ela permanecer até o final”, afirmou. Para Bronzatto, investir em recursos básicos de captação pode potencializar a mensagem e reforçar a presença digital de profissionais que utilizam vídeos para divulgar seu trabalho.
O crescimento da economia do conhecimento e das redes sociais tem levado muitos profissionais a buscar visibilidade em fases mais avançadas da carreira. Consultores, palestrantes, especialistas e executivos passaram a depender cada vez mais da exposição pública para gerar oportunidades de negócio.
Segundo Dias, nunca é tarde para desenvolver essa habilidade. “A comunicação é uma competência e pode ser desenvolvida em qualquer idade, em qualquer etapa da carreira”.
Ele compara o processo ao esporte. Algumas pessoas possuem características naturais que favorecem a comunicação, mas isso não impede que outras alcancem alto desempenho por meio de treinamento.
“A voz é um dos últimos instrumentos humanos a envelhecer. Uma pessoa pode ter 90 anos e continuar se expressando. É um recurso extremamente potente”.
O perigo de depender da edição
Outro ponto destacado pelo especialista é a diferença entre falar bem e comunicar-se bem. Para ele, muitos profissionais criam uma falsa percepção de competência ao depender excessivamente de edição em vídeos e conteúdos digitais. “Quando você depende da edição, perdeu a naturalidade. Virou um personagem. Não é você, não é a sua fala, não é a sua voz”.
Dias defende que a preparação deve permitir que a pessoa consiga se comunicar de forma consistente também em situações ao vivo, como reuniões, entrevistas, apresentações ou conversas difíceis. “Você precisa estar preparado para quando a vida te colocar numa situação ao vivo”.
Profissionais qualificados ainda permanecem invisíveis
Ao final da entrevista, o pesquisador fez uma reflexão sobre a dificuldade que muitos especialistas têm de ocupar espaços públicos, mesmo possuindo conhecimento relevante. Segundo ele, a falta de posicionamento abre espaço para conteúdos de menor qualidade ganharem visibilidade. “Se você acredita no seu conteúdo e na qualidade do seu trabalho, precisa mostrar isso para as pessoas”.
Para reforçar a ideia, Dias citou uma frase que costuma utilizar em seus treinamentos. “O mundo seria melhor se as pessoas de bem tivessem a ousadia dos canalhas”.
Na avaliação do especialista, profissionais que possuem conhecimento capaz de gerar impacto positivo não podem permitir que o medo da exposição os impeça de se comunicar. “Tem muita gente com conteúdo excelente que se retrai por causa da comunicação. Não pode perder esse bonde. Se o seu trabalho é bom e ajuda as pessoas, você tem uma missão: fazer com que ele chegue até elas”.
A entrevista completa está disponível no canal da JGTV no YouTube.
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