NR-1 expõe impacto da saúde mental sobre mulheres
A entrada em vigor da atualização da NR-1 trouxe para o centro das discussões corporativas um problema que há anos se manifesta silenciosamente nos ambientes de trabalho: o impacto da saúde mental sobre as mulheres.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que elas responderam por 63,46% dos benefícios concedidos por transtornos mentais em 2025. Dos 546.254 afastamentos registrados no período, 346.613 foram destinados ao público feminino.
O cenário ganha ainda mais relevância porque a nova regulamentação passou a exigir que empresas identifiquem, monitorem e gerenciem riscos psicossociais dentro dos Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Na prática, fatores como assédio moral, assédio sexual, sobrecarga de trabalho, metas excessivas, discriminação e ambientes tóxicos deixam de ser tratados apenas como questões individuais e passam a integrar oficialmente a gestão de riscos corporativos.
Mulheres concentram afastamentos por transtornos mentais
Os números ajudam a explicar por que a discussão sobre saúde mental e diversidade se tornou estratégica para as organizações. Embora homens e mulheres enfrentem pressões semelhantes relacionadas a metas, produtividade e desempenho, especialistas apontam que as profissionais ainda convivem com desafios adicionais ligados ao machismo estrutural e à desigualdade de oportunidades.
O reflexo aparece também nas estatísticas de assédio. Dados do Ministério Público do Trabalho indicam que mais de 80% das denúncias de assédio sexual registradas no país são feitas por mulheres.
Além disso, a presença feminina continua reduzida nos cargos de liderança. Levantamento do Censo Multissetorial de Diversidade, Representatividade e Percepção, realizado pela Gestão Kairós, aponta que mulheres ocupam apenas 25% dos cargos de gerência ou superiores nas grandes empresas brasileiras.
NR-1 transforma saúde mental em risco corporativo
A principal mudança trazida pela NR-1 é o reconhecimento de que o adoecimento mental pode estar diretamente relacionado à forma como o trabalho é organizado. Com isso, riscos psicossociais passam a receber tratamento semelhante ao destinado a riscos físicos, químicos e ergonômicos.
A norma representa uma mudança de mentalidade nas organizações. Em vez de tratar saúde mental apenas como benefício ou ação pontual de bem-estar, as empresas passam a ter responsabilidade legal sobre a prevenção dos fatores que podem provocar adoecimento psicológico.
Esse movimento também amplia a exposição das companhias a riscos jurídicos, trabalhistas e reputacionais quando ambientes hostis, práticas abusivas ou falhas de gestão contribuem para o sofrimento emocional dos colaboradores.
O custo financeiro do adoecimento mental
Além do impacto humano, os transtornos mentais representam um desafio econômico crescente. Segundo relatório conjunto da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), depressão e ansiedade provocam a perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano em todo o mundo, gerando prejuízo estimado em US$ 1 trilhão em produtividade.
Estudo da Deloitte intitulado Mental Health and Employers, a cada US$ 1 investido em saúde mental, há retorno médio de US$ 4 em produtividade.
No Brasil, o avanço dos afastamentos por transtornos psicológicos já pressiona despesas com saúde corporativa, turnover, absenteísmo e perda de desempenho das equipes. Especialistas alertam que ignorar os fatores psicossociais deixou de ser apenas uma questão de gestão de pessoas e passou a representar um risco para a sustentabilidade dos negócios.
Diversidade e segurança psicológica caminham juntas
A atualização da NR-1 também reforça a necessidade de olhar para grupos que historicamente enfrentam barreiras adicionais dentro das organizações. Entre eles, as mulheres aparecem como um dos públicos mais vulneráveis aos impactos dos riscos psicossociais.
Nesse contexto, iniciativas voltadas à promoção da segurança psicológica, combate ao assédio, desenvolvimento de lideranças inclusivas e fortalecimento da diversidade deixam de ser apenas ações reputacionais e passam a integrar estratégias de prevenção de riscos organizacionais.
Mais do que atender uma exigência legal, especialistas avaliam que as empresas que conseguirem transformar a saúde mental em pauta estratégica estarão mais preparadas para atrair talentos, reduzir passivos trabalhistas e construir ambientes de trabalho mais produtivos e sustentáveis nos próximos anos.
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