NR-01 exige nova cultura e amplia foco na saúde mental

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01) marca uma mudança significativa na forma como as empresas brasileiras devem lidar com a saúde mental dos trabalhadores. Mais do que cumprir uma exigência legal, as organizações passam a ter a obrigação de identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), olhando para fatores como sobrecarga de trabalho, comunicação inadequada, insegurança psicológica e assédio moral.

Para a psicóloga organizacional Flávia Vasconcelos, um dos principais equívocos sobre a atualização é acreditar que a norma trata do indivíduo, quando, na verdade, o foco está no ambiente de trabalho.

“Em primeiro lugar, a gente precisa lembrar, reforçar, que não é sobre o indivíduo, é sobre o ambiente de trabalho. E é isso que muda. As empresas precisam cuidar da organização do trabalho e das condições de trabalho daquele ambiente”, afirma.

A especialista participou do episódio de estreia da terceira temporada do podcast JG TV, ao lado do psicólogo clínico e professor de pós-graduação Dr. Anderson Zenidarci, que contribuiu de forma virtual, com uma análise sobre os impactos físicos e emocionais do adoecimento relacionado ao trabalho.

Crescem os afastamentos por transtornos mentais

A inclusão dos riscos psicossociais no GRO ocorre em um contexto de aumento expressivo dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil. Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), mais de 546 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais em 2025, número superior ao registrado no ano anterior.

Para Flávia, os indicadores demonstram que o problema não pode mais ser ignorado.

“Esse quadro já mostra para a gente o quanto as pessoas estão adoecidas no ambiente de trabalho. A gente precisa olhar com atenção para o que está acontecendo dentro das organizações”, ressalta.

Entre os fatores de risco psicossociais considerados pelo Ministério do Trabalho e Emprego estão comunicação inadequada, sobrecarga ou subcarga de trabalho, falta de reconhecimento, relações interpessoais conflituosas e ausência de segurança psicológica.

Burnout não está sozinho

Embora a síndrome de burnout tenha ganhado maior visibilidade nos últimos anos, Flávia destaca que o crescimento dos afastamentos não pode ser atribuído apenas ao reconhecimento da condição como doença ocupacional.

“Burnout é um tipo de depressão ocupacional. Para chegar a esse diagnóstico existe avaliação psicológica, avaliação psiquiátrica e perícia. Nenhum diagnóstico é dado gratuitamente”, explica.

Segundo ela, ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais também compõem as estatísticas de afastamentos relacionados à saúde mental.

Psicossomática mostra que o corpo também adoece

Durante a entrevista, o psicólogo Anderson Zenidarci destacou que os impactos do sofrimento emocional frequentemente se manifestam no corpo antes mesmo de um transtorno psicológico ser percebido.

“A doença não é invenção da pessoa, ela existe de fato, deve ser diagnosticada, tratada e curada”, afirmou.

De acordo com o especialista, ambientes marcados por pressão excessiva, insegurança profissional, metas inalcançáveis e conflitos constantes podem desencadear sintomas como dores musculares, alterações gastrointestinais, crises dermatológicas, insônia, hipertensão e queda da imunidade.

“O corpo frequentemente expressa aquilo que a pessoa não consegue elaborar emocionalmente”, observa.

Lideranças são estratégicas para o sucesso da NR-01

Um dos pontos centrais da nova exigência legal é o papel das lideranças na identificação precoce de sinais de sofrimento emocional.

Flávia afirma que o líder não deve assumir a função de psicólogo, mas precisa estar preparado para perceber mudanças de comportamento.

“Se eu conheço com quem eu trabalho, eu efetivamente desconfio que tem alguma coisa ali. A pessoa não funcionou daquele jeito sempre. Nós mudamos o nosso comportamento quando estamos adoecidos”.

Por isso, a capacitação das lideranças tem sido uma das primeiras ações implementadas pelas equipes que atuam na adequação das empresas à norma.

“Antes de aplicar o mapeamento, nós já estamos treinando os líderes. Eles precisam entender o que é a NR-01 e qual é o papel deles nessa história”.

Análise do ambiente, não os trabalhadores

Outro alerta feito pela psicóloga diz respeito à proliferação de soluções oferecidas ao mercado após a atualização da norma.

Segundo ela, muitas empresas estão confundindo o gerenciamento de riscos psicossociais com avaliações individuais de saúde mental.

“Teste de burnout e teste de depressão não são mapeamento de gerenciamento de riscos psicossociais. A NR-01 é sobre ambiente e não sobre indivíduo”.

A especialista destaca que as ferramentas utilizadas devem identificar os fatores de risco presentes na organização e gerar uma matriz com probabilidade e severidade de cada risco, conforme exigido pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Assédio moral está entre os fatores de risco

A discussão sobre assédio moral também ganhou destaque durante a entrevista. Para Flávia, práticas ainda comuns em muitas organizações configuram situações de risco e precisam ser combatidas.

“A exposição, o constrangimento e a humilhação em público são exemplos muito comuns e que configuram assédio moral”.

Ela reforça que a norma exige a criação de canais de escuta seguros, anônimos e sem possibilidade de retaliação aos trabalhadores.

“Uma das intervenções obrigatórias é a existência de um canal de escuta para os colaboradores de forma efetiva, segura e anônima”.

A especialista observa ainda que ameaças frequentes relacionadas à demissão ou ao desempenho também podem caracterizar assédio moral quando ocorrem de forma recorrente.

“Se você não ficar no top três, vai ser mandado embora. Isso é assédio moral”.

Segurança psicológica impulsiona inovação

Além da conformidade legal, os especialistas defendem que a gestão adequada dos riscos psicossociais gera benefícios diretos para os negócios.

“Empresa sem segurança psicológica não inova. Ambiente sem segurança psicológica não tem inovação”, destacou a apresentadora durante a conversa.

Flávia concorda e afirma que ambientes saudáveis contribuem para retenção de talentos, fortalecimento da marca empregadora e aumento da produtividade.

“Vamos olhar além da multa e do cumprimento da norma. Vamos promover um ambiente de bem-estar. Se você tiver uma empresa onde as pessoas tenham prazer em trabalhar e produzir para você, terá resultados muito maiores”.

Para ela, a implementação da NR-01 representa uma transformação de longo prazo.

“Quando a gente fala de mudança de cultura, dependendo do tamanho da empresa, é uma coisa que leva de cinco a dez anos para consolidar. É longo prazo e é para sempre”.

A entrevista completa está disponível no canal da JGTV no YouTube.

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