O excesso da fala e a falta de diálogo na sociedade
A crise da masculinidade contemporânea e a forma como a mídia tem tratado o tema foram os principais assuntos do primeiro episódio da terceira temporada do quadro Juntas e Geniosas, exibido em 10 de junho de 2026.
Durante o programa, as jornalistas Jussara Goyano, Gláucia Viola e Paula Felix, ao lado da designer Monique Elias, defenderam que a discussão sobre o papel dos homens na sociedade precisa ser aprofundada e não reduzida a uma situação binária entre a disputas ideológicas e partidárias.
O debate partiu da repercussão em torno do curso “A Forja e o Farol”, lançado pelo ator Juliano Cazarré, que propõe discutir masculinidade, espiritualidade e o resgate de papéis tradicionais de homens e mulheres na sociedade. Para as participantes, a polêmica em torno do tema acabou desviando o foco de questões centrais que merecem análise mais aprofundada.
“A dor dos homens é legítima. Ninguém está dizendo que ela não existe. O problema é quando essa dor vira disputa”, afirmou Gláucia Viola, durante a conversa.
Transformações sociais
Segundo as debatedoras, o principal desafio está em compreender as transformações sociais em curso e os impactos que elas têm sobre a identidade masculina. Paula Felix citou reflexões da ex-deputada Manuela D’Ávila sobre a relação entre mudanças econômicas e a crise da masculinidade.
“A mulher geralmente vive melhor do que a mãe dela, porque conquistou mais espaço social, mais escolaridade e mais posições no mercado de trabalho. Já muitos homens tentam reproduzir a masculinidade aprendida com os pais, mas não vivem as mesmas condições que eles viveram”, explicou.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o Brasil segue registrando índices preocupantes de feminicídio, evidenciando que as discussões sobre gênero ultrapassam questões individuais e refletem problemas estruturais da sociedade. As participantes defenderam que qualquer debate sobre masculinidade precisa considerar também os impactos sociais da violência de gênero e das desigualdades históricas.
“A gente não conseguiu ver um debate com profundidade. O tema central acabou sendo colocado de lado para discutir ideologias e não as questões que realmente importam”, observou Jussara Goyano.
A era da polarização
Ao longo da conversa, as integrantes do programa criticaram o que classificaram como superficialidade na cobertura midiática e nas discussões promovidas pelas redes sociais. Para elas, temas complexos acabam sendo simplificados em disputas binárias que dificultam reflexões mais profundas.
Gláucia Viola destacou que as plataformas digitais favorecem conteúdos polarizados e emocionalmente carregados, muitas vezes em detrimento de análises mais qualificadas.
“A comunicação hoje parte muito mais de indivíduos do que de instituições. Cada um fala a partir da sua própria crença, da sua ideologia, e isso dificulta o aprofundamento dos debates”, afirmou.
As participantes também discutiram o papel da religião na construção de narrativas conservadoras sobre gênero. Monique Elias avaliou que instituições religiosas historicamente exercem função de organização social e moral, mas alertou para os riscos quando a espiritualidade é utilizada para justificar estruturas rígidas de poder.
“Quando a religião se transforma em ideologia, ela deixa de ser espaço de reflexão para se tornar um instrumento de manutenção de estruturas já existentes”, disse.
A dificuldade da escuta ativa
O debate sobre essa falta de um diálogo mais conexo sobre a masculinidade levou as comunicadoras a trazer para a pauta o tema sobre o excesso da fala.
No segundo bloco, o programa abordou o chamado narcisismo conversacional, conceito desenvolvido pelo sociólogo norte-americano Charles Derber para descrever a tendência de algumas pessoas direcionarem sistematicamente as conversas para si mesmas.
Paula Felix destacou a importância da escuta ativa e da comunicação empática como contrapontos ao fenômeno.
“Você não tem que ouvir apenas com os ouvidos. Precisa ouvir com o coração. A empatia na conversa leva para lugares inimagináveis”, afirmou.
As participantes lembraram que o narcisismo conversacional não deve ser confundido com o transtorno de personalidade narcisista. Enquanto um se refere a um comportamento recorrente nas interações sociais, o outro é uma condição psicológica que exige avaliação clínica.
Durante a discussão, foi citada uma análise publicada pela Forbes em 2024, que identifica comportamentos típicos desse fenômeno, como a necessidade constante de trazer qualquer assunto para a própria experiência, a falta de interesse genuíno pela realidade do interlocutor e a tentativa de transformar toda conversa em uma oportunidade de centralizar a atenção.
Desafios da comunicação contemporânea
Para as integrantes do Juntas e Geniosas, os dois temas discutidos no programa estão diretamente conectados. Tanto a crise da masculinidade quanto o crescimento do narcisismo conversacional refletem uma sociedade marcada pela dificuldade de construir diálogos profundos, pela busca constante de validação e pela polarização dos discursos.
A expansão das redes sociais, a simplificação das mensagens e a transformação de debates complexos em conteúdos rápidos e viralizáveis contribuem para a perda da escuta e da capacidade de compreender diferentes perspectivas.
Ao encerrar o programa, Gláucia Viola recorreu à música brasileira para sintetizar a reflexão proposta no episódio. Citando versos de Caetano Veloso e Chico Buarque, observou que os desafios da comunicação mudaram ao longo das décadas.
“É curioso porque hoje a gente não vive mais o silêncio. Pelo contrário. A gente vive o excesso da fala e das certezas impostas por discursos prontos”, concluiu.
A reflexão final resume o ponto central levantado pelas debatedoras: em uma sociedade cada vez mais barulhenta, aprender a ouvir pode ser tão transformador quanto aprender a falar.
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